quinta-feira, 16 de julho de 2009
O Lírico em tópicos
a) Pronome: Eu. O autor fala de si para si mesmo.
b) “O sujeito é tudo”, assim, não há oposição entre sujeito e objeto.
c) Presença de uma voz central, através da manifestação “imediata” de uma emoção ou de um sentimento.
d) Caráter monológico, não exige ouvintes; pura auto-expressão.
e) Expressão de emoções, disposições psíquicas, reflexões, concepções e visões enquanto intensamente vividas e experimentadas.
f) Brevidade.
g) O “Eu Lírico” é a fusão da “alma que canta” (ou “consciência lírica”) com o mundo.
h) O universo como expressão de um estado interior.
i) Uso do ritmo, da musicalidade das palavras e dos versos.
j) O presente como um “momento eterno”.
l) Expansão do significado de fatos, pessoas e coisas, que ganham valor de metáfora.
Leia aqui, na próxima quinta (23 de junho, a partir das 21h), O Dramático em tópicos. E no dia 30 de junho, três textos inéditos exemplificando os gêneros épico, lírico e dramático.
Fonte: ROSENFELD, Anatol. Teatro Épico, Coleção Debates, São Paulo: Perspectiva, 2000, 4.a edição
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Novidades 2
A postagem de hoje, que você pode conferir logo abaixo, aborda o gênero épico, dando início a uma pequena série de posts contendo características de três gêneros dramatúrgicos, resumidas em tópicos extraídos do livro "O Teatro Épico", de Anatol Rosenfeld.
O Épico em tópicos
b) O ato de narrar define a presença de um narrador.
c) Se há um narrador, pressupõe-se a existência de uma platéia que o escuta/assiste.
d) A narração também inclui os estados de alma dos personagens (o que não exclui que o narrador também se coloque diante do que narra).
e) Há uma atitude distanciada e objetiva diante de personagens e fatos acontecidos.
f) O narrador tem um conhecimento geral da ação (inclusive da ação interior) dos personagens.
g) O mundo no Épico é amplo (vastidão de possibilidades narrativas)
h) Há definição clara entre sujeito e objeto:
- O narrador nunca se metamorfoseia nos personagens, apenas os “representa”
- O narrador mostra e ilustra
i) O passado é trazido ao presente através do narrador.
j) Fatos, pessoas e coisas são mostrados claramente sob o ponto de vista do narrador.
k) “Cada momento tem seus direitos próprios”[1].
l) O narrador “não corre impaciente para um alvo”[2] mas debruça-se em ampla medida sobre situações e estados de coisas.O autor épico move-se em torno da ação, que parece estar em repouso.
Na próxima quinta, leia aqui o Lírico em tópicos.
[1] Frase de Rosenfeld.
[2] Schiller, citado por Rosenfeld.
Fonte: ROSENFELD, Anatol. Teatro Épico, Coleção Debates, São Paulo: Perspectiva, 2000, 4.a edição
Novidades 1
Por outro lado, o segundo semestre terá atividades abertas à participação do público, o que já é uma forma de minimizar as dificuldades às quais nos referimos acima. Vale a pena ficar atento ao cronograma de atividades com platéia aberta, que será divulgado aqui, no dia 06 de agosto. Os trabalhos dos Grupos de Estudos estarão em recesso no mês de julho, devendo ser retomados na primeira semana de agosto/2009.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Texto 20 - "Maior do que eu te amo"
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VITO
Todos os dias eu agradeço ao rei dos passarinhos por tudo que o senhor fez por mim. Quando eu encontrar minha mãe e o meu pai vou pedir pra eles deixarem o senhor morar conosco. Lembra quando o senhor cuidou do dodói no meu dedo... e daquela vez que eu caí da escada e o senhor veio e me levantou. Nossa! O que seria de mim sem o senhor, não é? Existe uma palavra maior do que eu te amo pra dizer eu te amo pro senhor? Talvez não tenha, né? Então toda vez que eu disser “eu te plou!” vai querer dizer tudo, certo?
terça-feira, 7 de julho de 2009
Texto 19 - "Formigas na calcinha"
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(ELA ESTÁ LENDO NO JARDIM DA CASA DELA, DEITADA NA GRAMA. AO LADO, LIVROS E CADERNOS DA ESCOLA)
MENINA
Essa grama já esteve mais bem aparada! Vou reclamar com o jardineiro... (DÁ UNS TAPINHAS NAS PERNAS) Ai! E tem umas formigas me pinicando.. Ai! E parece que entrou uma na minha calcinha... (PÕE A MÃO LÁ DENTRO. ASSUSTADA) Meu Deus, ela me picou... (TIRA A MÃO MELADA DE SANGUE) Tá saindo até sangue! (ELA FAZ CARA DE DESESPERADA. DEPOIS COMEÇA A RIR SEM PARAR) Formiga que morde e sai sangue? Ora, onde já se viu! (RI MAIS AINDA, COM MAIS NATURALIDADE. PÁRA DE REPENTE) Puta que pariu: menstruei! (OLHA PARA OS LADOS. ARRANCA UMA FOLHA DE CADERNO E COLOCA PARA ESTANCAR O SANGUE.) Vou precisar de um absorvente! (SAI, COM A MÃO SEGURANDO O PAPEL DENTRO DA CALCINHA)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Texto 18 - "Quero ser a Barbie quando crescer"
Cleyton Cabral oferece no texto desta cena uma outra abordagem da Menina dos suspiros, desta vez sem precisar mencionar os suspiros. Com enfoque mordaz e bem humorado – que vem se configurando como uma marca de Cleyton em seus trabalhos – o autor constrói a personagem num tempo-espaço onde se mixam imagens poéticas, ironia e crítica de costumes. O ator Arthur Canavarro fez uma leitura dramatizada desta cena e, a exemplo de outros atores que se depararam com desafios semelhantes, dispensou a facilidade de uma apresentação afetada e de mero apelo ao riso da platéia para focalizar-se na delicadeza da personagem. Sem pretender ser naturalista na abordagem (até porque se tratava de um homem representando uma menina), o resultado que o ator obteve foi fiel ao espírito original do texto, tocando o risível sem exagerar no ridículo. A simplicidade dessa construção, aliada a um andamento sem pressa, ajudou a valorizar falas e interpretação, destacando nuances de intenções e humanizando a personagem.
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MENINA
Será que terei o corpo igual ao da minha Barbie Sonho? Aiii, é o meu sonho. Ela é tão magrinha, tão branquinha, com esses cabelos dourados. Quero ser a Barbie quando crescer. Mas, como? Se sou gordinha, pretinha e tenho o cabelo pixaim? Mas Michael Jackson também era pretinho e quando ele cresceu, ele ficou branquinho como o Ken. O Ken é tão bonito, os olhos azuis, parece um anjo. Só não tem asas. Eu também não tenho asas. Queria voar como passarinho, bem alto, lááááá em cima. Lá no céu e ver tudo pequenininho como uma formiga. Sonhei com uma formiga que voava. Ela tinha os cabelos loiros e os olhos azuis e era bem branquinha, como a Barbie. Ai, eu queria ser a Barbie. E encontrar um príncipe encantado parecido com o Ken. E nós dois voaremos por aí, beeeeeeeem alto. Deitar nas estrelas e olhar pra baixo e chamar todas as formiguinhas-anjos. Eu gosto tanto desse joguinho de computador. Só tenho medo do homem de barba que diz eu te amo para mim. Ele fica querendo me ver na escola. Eu tenho medo dele. Coloquei todas as minha Barbies na porta de casa.
domingo, 5 de julho de 2009
Texto 17 - "A hora da novela"
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Versão Reduzida
FILHO - Mãe, preciso revelar algo.
MÃE - Na hora da novela Aguinaldo? Espere dar o comercial!
(O FILHO SE SENTA AO LADO PARA ASSISTIR A NOVELA)
MÃE - Teu filho vem amanhã?
FILHO - É sobre ele mãe...
MÃE - Espere o comercial.
(VOZES DA TELEVISÃO, ENTRA O COMERCIAL)
MÃE - Diga!
FILHO - Sobre o Tião.
MÃE - Sim.
FILHO - Tião. Meu filho...
MÃE - Sei, sei, prossiga, antes que a novela comece.
FILHO - O problema, mãe, é que eu não sei o que falar... É tão chato... Puta que pariu, puta que pariu, sei lá, mas eu preciso contar. (SILÊNCIO) Sabe o Tião? O nosso Tião? Mãe, eu não acredito que isso aconteceu comigo. Porra! Comigo, porra! (SILÊNCIO) Desculpa, mãe, mas há ocasiões em que um homem como eu, uma vez na vida, precisa explodir, mesmo que isso fira a minha índole.
(COMEÇA A NOVELA, A MÃE VOLTA A PRESTAR ATENÇÃO NA TV)
FILHO - Mãe! A senhora não vai gostar de saber.
MÃE - Não agora Aguinaldo, na hora da novela.
(SILÊNCIO. PASSA O TEMPO, VOLTA O COMERCIAL)
MÃE - Fale agora Aguinaldo, e se possível não diga palavrão que eu não gosto.
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Versão Integral
FILHO - Mãe, preciso revelar algo.
MÃE - Na hora da novela Aguinaldo? Espere dar o comercial!
(O FILHO SE SENTA AO LADO PARA ASSISTIR A NOVELA)
MÃE - Teu filho vem amanhã?
FILHO - É sobre ele mãe...
MÃE - Espere o comercial.
(VOZES DA TELEVISÃO, ENTRA O COMERCIAL)
MÃE - Diga!
FILHO - Sobre o Tião.
MÃE - Sim.
FILHO - Tião, meu filho...
MÃE - Sei, sei, prossiga, antes que a novela comece.
FILHO - O problema, mãe, é que eu não sei o que falar... É tão chato... Puta que pariu, puta que pariu, sei lá, mas eu preciso contar. (SILÊNCIO) Sabe o Tião? O nosso Tião? Mãe, eu não acredito que isso aconteceu comigo. Porra! Comigo, porra! (SILÊNCIO) Desculpa, mãe, mas há ocasiões em que um homem como eu, uma vez na vida, precisa explodir, mesmo que isso fira a minha índole.
(COMEÇA A NOVELA, A MÃE VOLTA A PRESTAR ATENÇÃO NA TV)
FILHO - Mãe! A senhora não vai gostar de saber.
MÃE - Não agora Aguinaldo, na hora da novela.
(SILÊNCIO. PASSA O TEMPO, VOLTA O COMERCIAL)
MÃE - Fale agora Aguinaldo, e se possível não diga palavrão que eu não gosto.
FILHO - Mãe, sabe o Tião e a Júlia, as minhas suspeitas?
MÃE - Mas, não sei, não me contaste nenhuma delas, mas quais são as tuas suspeitas?
FILHO - Foram confirmadas. Eu já vinha notando que o Tião... Porra mãe! O Tião não é meu filho!
MÃE - O Tião não é teu filho? Nem meu neto?
FILHO - Puta que pariu! Puta que pariu! Aquela vaca da mãe dele me enganou.
MÃE - Sim, te enganou por três anos e não sei quantos salários mínimos... És um palerma! Um grandessíssimo palerma!
FILHO - Porra mãe! Precisa tocar na ferida? Precisa? Precisa?
MÃE - Porque todo mundo te passa a perna Aguinaldo, todo mundo!
sábado, 4 de julho de 2009
Texto 16 - "Está com pena de que?"
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MORGUE
Velha chata, imbecil, cricri. Todos os dias me acordando com aquele canário infeliz. Você não sabe o quanto eu te odiava... E todo dia vinte tava lá na minha porta (DEBOCHANDO) “Bom dia seu Morgue, vim buscar o condomínio”. Ah, como eu odeio que me cobrem. Pensa que eu não sei que a senhora gastava o dinheiro do condomínio pra comprar remédio pro seu marido? Sonsa. E não vem com essa de chorar em frente ao meu caixão não. Tá com pena de que? Da minha morte eu sei que não é. Deve ser dos R$200,00 reais a menos todo mês, né? Ah, se você pudesse me escutar... Queria só um pouco de voz pra você morrer junto, dona Judite. A gente ia apostar corrida pro inferno. (DONA JUDITE CONTINUA CHORANDO, SEM OUVIR NADA DO QUE MORGUE FALAVA)
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Texto 15 - "Sem consciência"
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Todos os dias eu lia e relia essas cartas e eu amava aquele homem, era o meu homem, no meu momento íntimo. Aquelas cartas estavam, sim no seu destino, era aquele o meu destino! E eu não sabia! Eu não sabia! Tudo o que eu mais esperava era chegar em casa para tomar um belo banho, por a minha camisola e abrir um novo capítulo. Passavam-se os meus dias, e eu não sabia! Passavam-se os meus anos, minhas horas e tudo aquilo que brotava dentro de mim tinha seu caminho espalhado, embriagando o ar do meu quarto, o tapete, as cortinas; o meu travesseiro. Era tão bom que eu não sentia medo e nem culpa. Eu não sabia! Eu não sabia! Eu juro que eu não tinha a menor consciência. Era o que eu tinha de mais emocionante para os meus dias. Eu não sabia!
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Texto 14 - "Suspiros secretos"
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CLARA - Onde a senhora vai D. Francisca?
D.FRANCISCA - Vou ao mercado, fazer minhas compras dos doces.
CLARA - A senhora vai comprar suspiros?
D.FRANCISCA - Claro e também vou lhe dar se é isso que voce quer saber. Quem me dera estar nessa fase, em que um suspiro faria meu dia mais alegre. Hoje meus suspiros não são mais doces.
CLARA - Como assim D. Francisca?
D.FRANCISCA - É que existem dois tipos de suspiro, minha menina: o doce, que é o que voce adoooora comer e um outro. Este outro vem com a vida.
CLARA - Quer dizer que vão aparecer outros suspiros na minha vida? Ebaaaaaaa, quero todos. Quando vai ser? Quando vai ser?
D.FRANCISCA - Nem todos vão lhe agradar. Vamos colecionando vários suspiros no decorrer dos anos, suspiros de lamentações, suspiros de saudades, suspiros de agonia e tantos e tantos outros.
CLARA - Aaah, então, se senhora já é um pouco velhinha, deve ter um monte desses suspiros guardados!
D.FRANCISCA - Tenho sim.
CLARA - E eu não posso provar agora porque sou pequenininha, né?
(D. FRANCISCA FAZ QUE SIM COM A CABEÇA)
CLARA - (A PARTE, PARA SI MESMA) Eu sabia, eu sabia que D. Francisca tinha suspiros secretos, vou procurar todos e vou achar tudinho, esse da saudade que ela falou , o da agonia e o das lamentações e ainda tem os outros que ela não quis falar mas eu vou descubrir... Ah se vou!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Texto 13 - "Nova alma velha"
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QUITÉRIA - Todos dizem que sou precoce. Que apesar de tão pouca idade, afinal são só dez anos de existência, às vezes me comporto, às vezes não, quase sempre me comporto como adulta. Um dia minha mãe me disse que eu era mais velha que ela. Perguntei: “como pode a filha ser mais velha que a mãe?” Ela explicou que as pessoas tem duas idades: uma do tempo em que ela nasceu e uma do tempo que sua alma anda no mundo. Minha mãe acredita que minha alma é sábia e que está reencarnando há cinco mil anos, no mínimo! Às vezes eu também acredito nisso. Às vezes não, quase sempre. Isso explica muitas vontades que tenho, principalmente minha amizade com pessoas mais velhas. Num gosto muito de conversar com pessoas da minha idade. Na verdade, meus melhores amigos já passaram dos trinta. A dona Gê, por exemplo, ela tem setenta anos e a gente conversa e se gosta tanto! Sinto que ela me respeita, conversa comigo de igual para igual. Diz coisas que nem o filho dela sabe.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Texto 12 - "Tudo começa e termina com um suspiro"
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Versão original para um ator
NARRADOR - Tudo começou e terminou com um suspiro. Sabem aquela ali do lado? E aquele ali? Bom, não há mais nada a fazer depois que tudo aquilo tinha vindo á tona. Dona Gê tinha duas décadas deitada na mesma cama e aquela menina vinha quase toda tarde. Quase. Binho não queria deixar “Essa menina vai acabar com o que resta da senhora, mãe”. Mas como se pode acabar com alguém já tão perto do fim? A parafina já ta quase toda no pires e o pavio cada vez mais curto. A vela de dona Gê já vai apagar. De início, ela nem queria saber da menina. “A gente precisa mesmo conviver com outros mesmo velho e doente? De menina eu já to cansada”. Mas Bia era danada. Não arredava o pé daquela porta por nada. Só saia quando tava escuro. Era legal trocar os suspiros pelos selos de dona Gê. E os suspiros vinham recheados de histórias, lendas, tudo o que ela quisesse imaginar. E que dona Gê pudesse contar. Como esquecer do Cavaleiro Cacheado? E da poesia de Inês na sacada? Aquela menina, dona Gê, sabia lembrar das coisas. As lágrimas desciam toda vez que ela dizia: FIM. Descobriu alguém para lhe ouvir, para lhe ver. Pra alguém assim, tão perto do seu próprio fim, ela derramou poucas lágrimas. Mas por que tinha outros suspiros a dar e receber.
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Versão adaptada para dois atores
NARRADOR 1 - Tudo começou e terminou com um suspiro. Sabem aquela ali do lado? E aquele ali? Bom, não há mais nada a fazer depois que tudo aquilo tinha vindo á tona. Dona Gê tinha duas décadas deitada na mesma cama e aquela menina vinha quase toda tarde. Quase. Binho não queria deixar.
NARRADOR 2 - “Essa menina vai acabar com o que resta da senhora, mãe”.
NARRADOR 1 - Mas como se pode acabar com alguém já tão perto do fim?
NARRADOR 2 - A parafina já ta quase toda no pires e o pavio cada vez mais curto. A vela de dona Gê já vai apagar.
NARRADOR 1 - De início, ela nem queria saber da menina.
NARRADOR 2 - “A gente precisa mesmo conviver com outros mesmo velho e doente? De menina eu já to cansada”.
NARRADOR 1 - Mas Bia era danada. Não arredava o pé daquela porta por nada. Só saia quando tava escuro. Era legal trocar os suspiros pelos selos de dona Gê. E os suspiros vinham recheados de histórias, lendas, tudo o que ela quisesse imaginar. E que dona Gê pudesse contar.
NARRADOR 2 - Como esquecer do Cavaleiro Cacheado? E da poesia de Inês na sacada?
NARRADOR 1 - Aquela menina, dona Gê, sabia lembrar das coisas.
NARRADOR 2 - As lágrimas desciam toda vez que ela dizia: FIM. Descobriu alguém para lhe ouvir, para lhe ver. Pra alguém assim, tão perto do seu próprio fim, ela derramou poucas lágrimas. Mas por que tinha outros suspiros a dar e receber.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Texto 11 - "Quanto custa o doce?"
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(MULHER SENTADA NUM BANCO DE PRAÇA, OLHA A PAISAGEM ENQUANTO VERIFICA A CAIXA DE DOCES QUE ESTÁ EM SUAS MÃOS. A MENINA SE APROXIMA E FALA COM A MULHER SEM PERCEBER QUE ELA NÃO OUVE BEM)
MENINA - Senhora, quanto é o doce?
MULHER - Eu tenho que cuidar. Já descansei bastante essas pernas entrevadas.
MENINA - A senhora tão idosa, tem que sair pra vender doces... A senhora não tem filhos?
MULHER - Vida de cão. Também, aquele inútil não faz é nada, só comendo do meu pobre dinheirinho.
MENINA - Senhora, quanto é o doce? (TIRA O DINHEIRO DO BOLSO) Me dê dois.
(A MENINA ESTENDE A MÃO E SÓ ENTÃO A MULHER A VÊ)
MULHER - Ai que susto menina! O que é que você quer? Há quanto tempo você está aí?
MENINA - Quero doces, senhora, me dê dois.
MULHER - (PEGANDO A CAIXA COM DIFICULDADE) Tome.
MENINA - Quanto é? (COMEÇA A COMER O DOCE)
MULHER - Hã, o que?
MENINA - Quanto é o doce?
MULHER - Quer outro doce?
MENINA - Quero sim.
(A MULHER PEGA OUTRO DOCE)
MULHER - Ta gostoso, criança?
MENINA - Hun, hum, delícia!
domingo, 28 de junho de 2009
Texto 10 - "Sobre separar siamesas"
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(NO PALCO, APENAS UMA CAMA DE HOSPITAL COMPÕE O ASSÉPTICO CENÁRIO. SENTADAS LADO A LADO, MARIA E ANA, DUAS IRMÃS SIAMESAS COLADAS PELO VENTRE, SE PREPARAM PARA UMA CIRURGIA QUE TENTARÁ SEPARÁ-LAS)
MARIA - Eu to com medo.
ANA - Não seja tola.
MARIA - E se não der certo?
ANA - É melhor tentar do que viver assim, você não acha?
MARIA - Sei não. Já me acostumei a isso tudo, a você. Depois, eu não quero morrer. Eu não sei o que tem depois, para onde a gente vai.
ANA - Nem eu, deixe de ser medrosa. Pense no que será a nossa vida depois. Vamos ser normais. Pessoas separadas. Vamos poder namorar.
MARIA - Eu não me importo de ficar colada a você pra sempre.
ANA - Você tem é medo de ser você mesma e encarar o mundo. Deixe de ser boba. Amanhã, nessa mesma hora, estaremos aqui comemorando o sucesso da cirurgia.
MARIA - Você tem razão.
(ENTRAM ENFERMEIROS E LEVAM AS DUAS. ESCURO. QUANDO ACENDE A LUZ NO PALCO, AGORA DUAS CAMAS. UMA DELAS VAZIA. MARIA TEM UM SORO PRESO AO SEU BRAÇO. MARIA ACORDA E OLHA PARA O LADO)
MARIA - Ana, você está aí? Não morremos, veja.
(SILÊNCIO, CAI O PANO)
sábado, 27 de junho de 2009
Texto 09 - "Socos no coração"
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(GRANDE PÊNDULO BALANÇANDO. É O PÊNDULO DA VIDA. EM UM EXTREMO, UMA IRMÃ. NO OUTRO, A OUTRA. ENTRE ELAS, UM ABISMO DE TEMPO QUE AS CONSOME... A PRIMEIRA OLHA PARA A FRENTE, A SEGUNDA, DE CABEÇA BAIXA)
SIAMESA 1 - A minha cabeça está erguida, os girassóis se montam. É uma desnitidez nitidez nitidez lançada. Eu sou uma gota sem fonte nem esparramar, e meu meio me anima, mas me “mordaliza”... Outra sombra se aproxima, desta vez cresce na minha barriga. (PAUSA) Amor?
SIAMESA 2 - (ERGUENDO A CABEÇA. CANTANDO DOCE) Pois não?
SIAMESA 1 - (FATÍDICA) Uma de nós morrerá.
SIAMESA 2 - (AINDA DOCE, PARECENDO MAIS ENTORPECIDA) Qual não será surpresa a morte dessa segunda. Será?!
SIAMESA 1 - É triste. Mas inevitável e aborrecível.
SIAMESA 2 - É.
SIAMESA 1 - E é.
(FALANDO RÁPIDO, MECANICAMENTE TALVEZ OU RINDO, JAMAIS FURIOSAS)
SIAMESA 1 - Te odeio.
SIAMESA 2 - Me odeio também, ahahah.
SIAMESA 1 - Um soco no meu coração e você não é mais.
SIAMESA 2 - Dê-lhe-me. Venha. Vai. Dê-lhe-me.
(REPETEM EXAUSTIVAMENTE ESSE TRECHO. O PÊNDULO PÁRA E ELAS TAMBÉM, SIMULTANEAMENTE.)
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Texro 08 - "Longe do Paraíso"
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NARRADOR - Era um tempo distante de hoje, numa vila escondida do mundo, nasceu, um dia, um estranho ser. Coladas pela bacia e pelas pernas, duas crianças brotaram de um único ventre. Siamesas, diriam os cientistas de nosso tempo. Mas ali, onde céu e terra são amigos dos homens e os homens sabem apenas o que lhes permite Deus e a lavoura... ali, aquelas pequenas crianças eram castigo dos deuses, circo de horrores, sujeitas ao pior dos destinos: o isolamento, a solidão.
(O MESMO ATOR QUE FAZ O NARRADOR INTERPRETA AS DUAS SIAMESAS)
ISABEL - Se um dia eu pudesse sair de casa, comeria maçãs.
ELISA - Maçãs? Por que?
ISABEL - Olha (MOSTRA UM LIVRO). Olha este desenho! Elas são tão redondas, tão vermelhas... é como comer um pedaço do paraíso.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Texto 07 - "O mundo não está para brincadeira"
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(EM CENA, UM HOMEM DE MEIA IDADE SENTADO NUMA POLTRONA EM FRENTE A TELEVISÃO LIGADA E FORA DE SINTONIA. AO LADO DA POLTRONA ESTÁ UMA BENGALA E UMA MESA AO FUNDO. A MULHER ENTRA EM CENA COM UMA CAIXA E UM GUARDA CHUVA AINDA ABERTO.)
MULHER - Que mal costume tu tens de deixar a porta sempre aberta. (FECHA GUARDA-CHUVA) Não vês que o mundo não está para brincadeira. Essa caixa aí (APONTA PARA TV) não mostra como tudo está?
(SILÊNCIO)
MULHER - E essa chuva que não avisa que vem?
(SILÊNCIO)
MULHER - Em Frankfurt tinha hora pra tudo, sabia?
(SILÊNCIO)
MULHER - Que sujeira! Omo vamos almoçar aqui? Tu não vês a sujeira que esses gatos fizeram? (SILÊNCIO. A MULHER DEIXA A CAIXA NA MESA)
MULHER - Trouxe o que tu mais gosta: ensopado de carne com pasta caseira.
(SILÊNCIO)
MULHER - Johann, tem fezes e xixi de gato por toda a casa. Não acredito que faz três meses que tua esposa morreu. Tudo aqui parece um chiqueiro de gatos.
(SILÊNCIO)
MULHERQue falta me faz teu pai! Mas, estou aqui. Acorda. Lembra-te do que teu pai dizia: “para superar um dor, dê uma volta na praça”. Filho? (ELA VAI AO FILHO) Filho, onde tu estás com a cabeça? Filho, o almoço. Está esfriando.
(SILÊNCIO)
MULHER - Johann? (ELA TOCA NO ROSTO DO FILHO)
MULHER - Filho, tu estás me escutando?
(SILÊNCIO. ELA TOCA NO PEITO DO HOMEM)
MULHER - Filho, volta!
(SILÊNCIO)
MULHER - (ELA FALA EM ALEMÃO, GRITANDO) Socorro! Um médico, por favor!
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Texto 06 - "As chinelas do desnaturado"
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Versão Apresentada
D. ROSA - Albeeeeeerto! Albeeeeeerto!
ALBERTO - Oi mãe. O que é? Não está vendo que eu estou assistindo a TV?
D. ROSA - Que TV que nada! Pegue os doces da menina!
ALBERTO - A senhora fica babando essa menina só porque ela tem esse sotaque estranho.
D. ROSA - Não estou babando ninguém! Tome tenência, homem. Você sabe muito bem que gosto muito de Manuela porque ela, com essa idade, já fala alemão e você, que é filho de alemão, não sabe falar um oi.
ALBERTO - Papai nunca teve tempo de me ensinar, também, eu nem queria mesmo. Aquela língua lá dele é que era difícil para caramba.
D.ROSA - Sim, deixe de resmungar e pegue os suspiros da menina.
ALBERTO - Tá bom!
D. ROSA - Tá bom, o que? Que filho desnaturado é esse? Mal educado! E porque está descalço? Cadê as chinelas que eu comprei?
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Versão Integral
MANUELA – Olá, Dona Rosa. A senhora tem doces hoje?
D. ROSA – O que menina?
MANUELA – Doces, Dona Rosa.
D. ROSA – Ah. Tenho sim. Tenho de tudo o que é jeito: bolo, suspiros, paçoca, pé-de-moleque, algodão doce, chocolate, trufas...
MANUELA – Calma Dona Rosa, eu ficarei com os suspiros.
D. ROSA – Peraí que eu vou pegá-los para você. Albeeeeeerto! Albeeeeeerto!
ALBERTO – Oi mãe. O que é? Não está vendo que eu estou assistindo a TV?
D. ROSA – Que TV que nada! Pegue os doces da menina!
ALBERTO – A senhora baba essa menina só porque ela tem esse sotaque estranho.
D. ROSA – Babá? E eu sou babá de ninguém? Tome tenência, homem. Voce sabe muito bem que gosto muito de Manuela porque ela, com essa idade, já fala alemão e você, que é filho de alemão, não sabe falar um oi.
ALBERTO – Papai nunca teve tempo de me ensinar, também, eu nem queria mesmo. Aquela língua lá dele é que era difícil para caramba.
D.ROSA – Sim, deixe de resmungar e pegue os suspiros da menina.
ALBERTO – Tá bom! Tá bom, pegarei. Olhe aqui, tome.
MANUELA – (SORRINDO) Brigado seu Alberto e (EM ALEMÃO) que Deus te abençõe.
ALBERTO – O que?
MANUELA – Deus te abençõe.
ALBERTO – Ah, tá bom, e pra tu também.
D. ROSA – Que filho desnaturado é esse e mal educado e porque está descalço? Cadê as legítimas que eu comprei?
ALBERTO – As havaianas?
D.ROSA – As legítimas. Fiz o maior esforço para comprá-las e só o vejo descalço.
MANUELA – Dona Rosa, cadê o meu troco?
D.ROSA – É o que?
MANUELA – O troco. A senhora falta me dar 10 centavos.
D.ROSA – Ah, está certo. É porque estou sem trocados agora. Mas, olha, amanhã você passa aqui que darei a você.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Texto 05 - "Quase cinquenta gatos"
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(HOMEM ESTÁ SENTADO NO CHÃO EM CIMA DE ALMOFADAS. TEM QUASE CINQUENTA GATOS A SE ENROSCAR POR PERTO. DESCANSA O ROSTO NUMA BENGALA. MENINA RUIVA USA UMA ROUPA BRANCA FEITA DE SUSPIROS E ESTÁ COMENDO A BARRA DO VESTIDO, LAMBUZANDO-SE. OS GATOS SE DISTRAEM DO HOMEM E SE APROXIMAM LENTAMENTE, TENTANDO COMER SEUS SAPATOS)
HOMEM – Ainda agora não te disseram que não poderias entrar aqui?
MENINA – Você pode me perdoar, moço?
HOMEM – Vamos, perdoo, sim, mas nenhum dos cinquenta você levará, entendeu? Direitinho, dessa vez?
MENINA – Estava pensando que seria mais bonito desistir dos gatos, senhor.
HOMEM – Não tenho medo de suas doçuras, elas não vão funcionar, sabe?
(MENINA SORRI LEVEMENTE)
HOMEM – O que você quer agora?
(MENINA TIRA UM PEDAÇO DA MANGA E OFERECE AO HOMEM)
HOMEM – (GARGALHA) Sua garotinha burrinha, não imagino como achou que ia funcionar comigo! (RI) Seu poder pode dominar os gatos, não venha para cima de mim!
MENINA – Eu domino seus cinquenta gatos de uma vez.
HOMEM – Mas não sabe usá-los, menininha estúpida! Nem a eles, nem a mim.
(LÁGRIMAS NOS OLHOS DELA)