terça-feira, 11 de agosto de 2009

O sonho, de Strindberg

Assim como Büchner, Johan August Strindberg [1] também experimentou recursos que resultaram numa fragmentação espaço-temporal em suas peças, com resultados distintos daqueles obtidos pelo criador de Woyzeck (1837). Em O Sonho (Ett Drömspel/A Dream Play/Uma peça de sonho ou Uma peça que sonhei, 1901), que rompe com várias regras do aristotelismo e se consubstancia em um tipo de narrativa não-realista, o dramaturgo sueco introduziu deliberadamente a possibilidade de se expor e se explorar em cena aspectos da dinâmica dos conteúdos do inconsciente humano [3]. Tal proposta se evidencia desde as próprias rubricas, que descrevem verdadeiros cenários vivos:

A cena escurece por instantes. As personagens em cena saem ou mudam de lugar. Ao voltar a luz, vê-se ao fundo, na sombra, a Praia da Morte. A meio caminho, a baía em plena luz e, no primeiro plano, a Praia Bela. À direita, um pormenor do Casino, de janelas abertas. No interior, vêem-se pares que dançam. Sentadas num caixote vazio, três criadas; de mãos pela cintura umas das outras, olham para os dançarinos. Na grande escadaria do Cassino, Edite, “a feia”, de cabelos emaranhados, sentada diante de um piano. À esquerda, uma casa de madeira pintada de amarelo. Duas crianças, em trajes de verão, jogam bola. No segundo plano, um embarcadouro com veleiros brancos. Na baía, um navio de guerra, um brigue branco de escotilhas negras. Paisagem de inverno; neve e árvores vestidas de folhas. Inês e o oficial entram. O sonho, cena X, (STRINDBERG, p.19)

As intenções de Strindberg são explicitadas desde o prefácio da obra, onde ele diz que procurou:

reproduzir a forma incoerente, mas aparentemente lógica, do sonho. Tudo pode acontecer, tudo é possível e verossímil. Deixam de existir tempo e espaço. A partir de uma insignificante base real, o autor dá livre curso à imaginação, que multiplica os locais e as ações, numa mistura de lembranças, experiências vividas, livre fantasia, absurdos e improvisos. As personagens desdobram-se e multiplicam-se, desvanecem-se e condensam-se, dissolvem-se e refazem-se. Mas uma consciência suprema a todas domina: a do sonhador. (STRINDBERG, p.19)

Sem dúvida, o texto evoca a impressão de se estar acompanhando o desenrolar de um sonho, com saltos temporais de variadas amplitudes (poucas horas, dias, anos) e direções (futuro, passado), mudanças estonteantes na cenografia – que, inclusive, é descrita no texto de modo a parecer irromper com vida própria –, personagens que se transformam em outros, cenas paralelas que redimensionam o significado do que está ao redor. Porém, apesar da multiplicidade de imagens e do clima onírico (castelos que crescem, mulheres que são aguardadas e jamais são vistas, crianças com roupas de praia numa paisagem invernal), nada é gratuito ou se pode classificar seguramente como “absurdo”. Inclusive, o que soaria absurdo no cotidiano comum, surge e flui na seqüência de falas como algo perfeitamente coerente e corriqueiro no contexto daquela realidade alterada [4].

As situações aludem a sensações conhecidas (culpa, medo, impotência diante das circunstâncias, paixão, abandono, esperança) em circunstâncias que, apesar de incomuns, aparentam ser estranhamente familiares [5], estimulando nosso espaço mental sem usar de qualquer cerimônia. Personagens surgem com o peso de arquétipos (O Oficial, o Pai, a Mãe, o Filho, a Porteira, o Advogado, o Poeta, o Professor, os decanos de Letras, Medicina, Direito e Filosofia, ou mesmo Lina – predestinada a repetir o destino de submissão reservado à maioria das mulheres daquela época) e se materializam na ação com desconcertante humanidade.

Através de diálogos curtos, quase sempre cheios de ironia [6], todas essas criaturas agem como se não mais precisassem usar de quaisquer máscaras ou subterfúgios para ocultar seus verdadeiros sentimentos e intenções. E não precisam mesmo, afinal gozam de uma liberdade que, aparentemente, só é possível nos sonhos. Ancorado no que ele mesmo chama de “base real insignificante”, o autor demonstra que efetivamente deu “livre curso à sua imaginação” ao respeitar a lógica peculiar do espaço e do tempo desse campo de ação onírica. Assim, através de elaboração e expressão dramático-literária, Strindberg pôde oferecer um vislumbre de seu próprio e imenso tecido multidimensional de conteúdos mentais. Na busca de uma fidelidade à interpretação de sua própria matriz onírica inspiradora, esse dramaturgo toca a essência de um mesmo mundo com o qual toda a humanidade se relaciona, evocando estranha e intraduzível familiaridade naquilo que pode até parecer sem sentido no conteúdo d’ "O Sonho".

Luiz Felipe Botelho

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[1] Escritor, ensaísta e dramaturgo, Strindberg foi também jornalista e crítico social, “profundamente interessado tanto na ciência (química, medicina, ciências políticas) quanto no ocultismo e na estética. Homem de letras, novelista, poeta, pintor, considerado um dos maiores renovadores do idioma sueco, idealizador do Teatro Íntimo (Intima Theater), que funcionou de 1907 a 1910 e tornou famoso o número 20 da Rua Norra Bantoget, na própria capital” sueca. (...) “Escreveu a maior parte dos dramas intimistas aí encenados, quase sempre referidos ao casal, ao casamento como armadilha, explorando-se ao infinito as contradições e ambivalências entre o pensar, o sentir e o agir que tanto encantaram o escritor Arthur Schnitzler e o médico Sigmund Freud, para citar dois perscrutadores da psique humana, ambos estabelecidos naquela Viena fin-de-siècle que insistia em chocar o mundo com experiências de vanguarda na área cultural”. (FILHO, Gisálio Cerqueira. A Ciência Política e o Teatro Intimista de August Strindberg).

[2] Transbordante de imagens e significações, a trama descreve a passagem de um ser divino pelo mundo dos humanos – Inês, filha do deus Indra – que decide experimentar a existência entre (e como um de) nós. Além de vivenciar o cotidiano de uma mulher – sobretudo a vida em família e a luta pela vida – Inês entra em contato com dezenas de personagens de todos os tipos e origens. Aprendiz testemunhal, segue observando os contextos de cada um deles, deparando-se com comportamentos viciosos e dinâmicas sociais que se evidenciam na trama como responsáveis por alimentar e manter o sofrimento terreno.

[3] O sonho faz parte de um conjunto de textos teatrais de Strindberg onde o onírico é tomado como referência importante na criação dramatúrgica. As outras peças são a trilogia O Caminho de Damasco/Para Damasco (Till Damaskus/To Damascus, 1898/1901), considerada a primeira contestação drástica do drama como forma literária e marco inicial do expressionismo, e A Sonata dos Espectros (Spöksonaten /The Spook Sonata/The Ghost Sonata, 1907).

[4] "Por que é que sou obrigado a esfalfar-me tratando dos cavalos, preparando-lhes as camas e a varrer o esterco”, pergunta o Oficial a Inês que responde “Para que sintas vontade de fugir”. O Sonho, Cena II. “Quem é esta moça”, pergunta a Mãe, apontando para Inês. O Oficial responde em voz baixa: “É a Inês”. E a Mãe diz, no mesmo tom: “Ah! É a Inês! Sabes o que andam dizendo? Que ela é a filha do deus Indra e que desceu à Terra para ver como vivem os homens”. O Sonho, Cena III. (STRINDBERG, p. diversas)

[5] De um modo geral, são cenas que costumam evocar no leitor/espectador a sensação de que, de algum modo, aquele universo não lhe é de todo estranho.

[6] "Nada é livre, tudo tem dono”, diz o Advogado. “Até mesmo o mar imenso e infinito?”, pergunta Inês. E o Advogado responde: “Tudo! Não podes navegar ou acostar seja onde for sem fazer uma declaração e sem pagar uma taxa! É muito lindo, como pode ver”. O Sonho, Cena XII. (STRINDBERG, p.155)

BIBLIOGRAFIA
- BARRETO, Luiz Felipe Botelho Paes. O jogo do ilimitado: Dissolução dos limites de tempo e espaço na dramaturgia de João Falcão. SESC - Piedade: Recife - PE. 2007
- STRINDBERG, August. O sonho. Portugal: Editorial Estampa.

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